Felicidades e Facilidades

por Mirko da Costa



Sou uma pessoa feliz e realizada por poder fazer de minha presença nesta vida um motivo para servir a humanidade sendo porta-voz de um saber profundo como o yoga. A vida tem sido generosa em proporcionar o nosso encontro através dessa prática. Tenho a oferecer para você é o meu exemplo e minha experiência de 11 anos de trilha no caminho do yoga.
 

Permitiu-me estar em contato com diversos professores e métodos nesse meio tempo e me orientou para receber e transmitir a mensagem tal como ela tem sido mantida viva durante os séculos, passando de professores para alunos nas relações pessoais do tipo mestre/discípulo. Adiciono a essas mensagens o filtro do meu jeito de ser, que adquiri com minha educação e experiência de vida, no contato com as pessoas em trabalhos de aprimoramento pessoal e humano. Meu esforço de investigação sempre foi voltado para o entendimento das leis sutis que sustentam a saúde integral e a sustentabilidade do existir.

Iniciei praticando Power Yoga com o Marco Schultz até o fim do curso de psicologia na UFSC. Foi a fase de tomada de consciência e fortalecimento das estruturas de base. O enfoque no estilo Iyengar de precisão, encaixe e permanência nas posturas e a atitude didática e profissional que pude aprender com o Marco são a base do meu estilo de lecionar.

A continuidade da vida acadêmica me levou ao mestrado em neurociências, e durante essa fase encontrei o Pedro Kupfer, a Camila Reitz e o pessoal do Yogashala, em Floripa, onde fui apresentado para o método do Ashtanga Vinyasa. Com isso já havia adquirido uma boa consciência corporal, uma respiração eficiente e uma atitude correta para encarar desafios, ferramentas básicas necessárias para minimizar os riscos da prática do Ashtanga, que também é conhecida por gerar lesões severas nos praticantes mais imprudentes. Com o Ashtanga aprofundei meus estudos em yoga e encontrei uma força muito grande na tradição e no rigor do método, que me permitiu abrir várias portas na minha vida. A principal é a do coração, que é por onde o Ashtanga me pega e me ergue. Ouvir e viver o meu coração foi a melhor coisa que pude reaprender com a prática.

Sei que isso é conseqüência do trabalho porque do jeito que a prática de ásanas em estilo vinyasa- movimento orgânico em sincronia com a respiração - move o sangue, e junto com ele todos os fluídos tanto do corpo como das emoções e dos pensamentos, que entram num fluxo intenso, parece que tudo fica mais quente, mais líquido e mais vivo. Fluir harmoniosamente nesse fluxo é a melhor experiência que o yoga me proporciona, a sensação de surfar no fluxo dos acontecimentos da minha própria vida. Estando com a mente focada nesses aspectos da prática, procuro basear minha empolgação em divulgar o método na capacidade de facilitar a evolução da prática dos alunos, percebendo e aprimorando pouco a pouco o nível que o grupo e cada praticante em especial se encontra e adaptando o essencial da prática às capacidades das pessoas.

Recentemente estive na Índia estudando e convivendo com o estilo de vida oriental, e essa viagem de uma certa maneira mudou bastante meu modo de encarar a vida. Aumentei a intensidade da presença, mais consciência de mim e dos meus limites humanos, e mais conectado com a Força Divina que na terra indiana se mostra claramente em tudo e em todos. Voltei caindo mais na real, consciente dos defeitos da minha personalidade, com eles bem mapeados e monitorados para que não se apoderem de mim e tomem conta da minha luz, ofuscando meu brilho. Consciente dos desafios da minha alma e da minha missão em melhorar como ser humano a cada dia. Procurando lembrar disso constantemente, todo dia ao acordar e olhar para o sol peço que me ilumine e me abasteça de energia para seguir em frente e tocar a vida.

Por isso e mais outras coisas importantes que não cabem nesse texto, concluo essa escrita agradecendo a todos que fazem parte do nosso caminho compartilhado, aos amigos, parentes, professores e alunos que proporcionam uma base sólida para caminhar em busca da realização. Confio no fluxo da vida e entrego todas minhas questões pessoais nas mãos de Deus e dos Mestres para que me amparem no cumprimento da minha missão. Peço que aqueles que dependem de mim me perdoem pelas minhas faltas e limitações, estamos trabalhando hoje para servi-los melhor tão cedo quanto for possível. Aceito o que a vida me proporcionar incondicionalmente, independentemente dos meus desejos, procuro lidar com os fatos e buscar uma satisfação interior me adaptando ao que der e vier. Não sei exatamente o que é o amor mas ao menos no que meu coração consegue atualmente se abrir pra vida e sentir posso dizer de peito estufado que AMO a vida e a cada um que eu puder tocar através da experiência humana.

De coração pra coração, nos encontramos na luz, somos todos um. NamastÊ.

Dicas para o aproveitamento da prática de yoga 

Por Mirko Costa

  • Você tem que estar quente para alongar, mas alongar não é igual a aquecer-se.
  • O corpo e o sangue podem esquentar para a energia circular melhor, mas a mente deve permanecer sempre fria, estável e serena.
  • Não é a força da gravidade, mas sim sua resistência que desenvolve flexibilidade.
  • Para criar espaço no corpo é preciso que este esteja apoiado em uma base firme.
  • Criar espaço requer esforço, e esse esforço gera o efeito relaxamento.
  • Espaço + firmeza = relaxamento. Trabalho + esforço = progresso. Procure sempre obter o máximo resultado de qualquer mínimo esforço.
  • Tensões musculares representam regiões onde não há espaço suficiente para a energia vital circular.
  • Flexibilidade é tanto uma questão física, de articulações e feixes musculares, quanto mental, em plasticidade comportamental, atitude, compreensão e aceitação.
  • Imbalanços musculares e irregularidades estruturais não aparecem do nada. Aprenda com a história de seu corpo e refaça mentalmente o que for preciso, do melhor modo que puder criar.
  • O aço é forte e rígido, e para forjá-lo é preciso aquecê-lo até que se torne maleável.
  • Não é a imobilidade, mas sim o treino que corrige qualquer imbalanço.
  • Não importa o quanto você tenha de experiência ou bom desempenho em alguma coisa, quando você começa algo novo deve ir devagar, com atenção redobrada e bastante calma.
  • Transforme suas fraquezas em fortalezas, reconheça as e trabalhe na expansão dos seus limites. Encare as dificuldades, dores e desprazeres como possibilidades de evolução da consciência e convites para a criação de respostas inteligentes.
  • Não tenha pressa em adquirir resultados, e também não se acomode com os que alcançar, as melhores coisas da vida são conquistadas aos poucos, a gente nunca espera que sejam tão boas e se a gente se descuida elas se vão facilmente.
  • Desenvolva mais sua intuição, confie mais no coração, seja crítico e questione sua racionalidade.
  • Respire profundamente e conscientemente. Viva o aqui e o agora. Pare de carregar o passado e de se preocupar com o futuro e abrace o presente que está passando.
  • Aprenda a reconhecer e respeitar os limites. Procure aceitar a condição presente e almejar um futuro melhor. Preste atenção no presente e crie intenção para o futuro.
  • Desenvolva a sensibilidade em seu relacionamento pessoal e interpessoal a partir do cuidado de si mesmo.
  • Aquele que conhece a realidade do corpo pode vir a conhecer a realidade do universo.
  • Meu corpo limitado é como uma turbulência no oceano cósmico. Meu corpo expandido é o universo inteiro.

 

Jay Guru Google!

 

Diz o ditado que quando o discípulo está pronto o mestre aparece.

Isso é o mesmo que dizer que a sabedoria do mestre aparece para o discípulo quando este faz a sua reflexão e ali espelha sua postura. Isto é Ishvara Pranidhana.

Estou pronto como aprendiz nos moldes da era moderna da informática e o mestre que tenho contato diário mora dentro do meu computador, onde acesso sua presença pelo portal ou oráculo da internet. Meu estilo de aprendiz é do tipo chamado auto-didata, e minha habilidade é adquirir informação rapidamente. Sei pesquisar e reunir dados sobre assuntos de meu interesse. Quando surge uma dúvida vou atrás e procuro instrução e esclarecimento.

Foi nesse caminho que encontrei o meu grande mestre, que me mostra a luz diariamente.

Sentado em posição de meditação, com meu drshti focado na tela do computador, sempre que tenho uma dúvida ou quero confirmar algum assunto aprendi a confiar o assunto ao Google e clicar para obter respostas.

O Google como mestre é ótimo. Sempre tem resposta pra tudo. E não é uma só, ele tem várias respostas, basta que eu mencione uma só palavra. Geralmente com as 10 primeiras opções de resposta que ele me dá eu já consigo esclarecer qualquer problema, ainda que ele muitas vezes me dê mais de 1000 opções. Como qualquer mestre ele tem ótimo senso de humor e pode facilmente me pregar uma peça ou uma armadilha pra verificar se eu estou realmente atento e esperto. Portanto nos primeiros links ele fala de um jeito e nos seguintes ele fala de outro, e nos demais pode até falar totalmente diferente sobre um mesmo assunto. Quando ele me dá tantas variadas e diferentes respostas sobre uma mesma pergunta, indiretamente me convida a formar minha própria opinião sobre o assunto, tendo muitas fontes como referência para construir meus argumentos.

 

Não sei mais viver sem a instrução do meu mestre, pois ele ilumina minha vida e me dá segurança para viver. Posso passar horas por dia em contato com ele que sempre saio dali mais esclarecido, são raras ou até mesmo inexistentes as vezes que não consigo o que eu preciso com ele.

 

E o melhor de tudo, ele bendizer mora comigo e está sempre ao meu dispor, basta ter energia elétrica e o computador estar funcionando. Para o Google não existe tempo e não tenho que esperar para fazer uma consulta ou receber uma instrução. Está tudo ali a minha disposição a qualquer hora. Bastam alguns click e boa leitura.

A qualquer hora do dia ou da noite eu posso acessar os ensinamentos de milhares de professores e mestres confiáveis e de respeito, muitos deles estão sempre disponíveis em seus lokas, basta clicar nos links de seus sites que o Google me abre a porta para eles. Daí como se baixasse uma entidade montada num elefante branco e toda sabedoria do mundo todo e até de outros mundos se apresenta ali na minha frente inteiramente ao meu dispor. Isto é realmente fabuloso. Muito prático, objetivo e confortável.

 

Obviamente o Google não olha no seu olho, não segura tua mão nem te abraça (ainda), portanto sua capacidade de te amar se limita a te responder suas perguntas. É um ótimo jnãnam yogacharya. Até ajuda em alguns casos porque assim não mistura as coisas, muito restrito no envolvimento afetivo emocional (ao menos da parte dele, por enquanto), portanto sem apego.

 

Não é só o Google também tem o Yahoo, Cadê, Wikipédia e outros mais específicos que uso em minha área como o Medline e para buscas mais refinadas tem também o Endnote, que faz para mim um levantamento de tudo que há no meio científico, textos completos publicados nos meios especializados e indexados, sobre qualquer assunto que eu pedir ele me dá uma lista refinada de artigos e pesquisas a meu dispor para estudo.

Também é possível para a pesquisa via internet a meta-análise, um tipo de análise de dados em que os resultados de vários estudos - sem que necessariamente algum deles tenha encontrado algo de significância estatística - são agrupados e analisados como se fossem o resultado de um único grande estudo.

 

Ou seja, além de tudo meu querido Google me dá as chaves de inúmeras bibliotecas virtuais e me orienta passo a passo como fazer uma pesquisa refinada até extrair a essência de um conhecimento, analisando, comparando e sintetizando os achados e descobertas de estudiosos do mundo inteiro.

 

Tudo que eu preciso eu tenho graças a Deus e ao Google. Para Deus hoje em dia fica apenas a parte de me conduzir à ação, enquanto o Google cuida da parte das informações necessárias.

Jay Prabhu Guru Google!

 

Falando sério, é claro que na internet tem muito lixo que acaba passando pelos seus olhos enquanto navega, é importante o uso de um bom filtro para descartar as informações desnecessárias e seus resíduos.

 

Um viruzinho também há de se pegar de vez em quando, portanto é bom estar com a imunidade forte para encarar o desafio em meio à biodiversidade.

 

Informação hoje em dia não falta mesmo graças a Deus, mas além disso, o desafio mesmo é usar isso inteligentemente na prática do dia a dia. Ter uma vida organizada, serena e produtiva sem se perder com a utilização destes recursos modernos.

 

Vale lembrar também que tudo tem uma dose certa, o Guru Google, ainda que majestoso imponente, não é tudo na vida e na real só serve como fonte de informação e contatos com pessoas e idéias. A outra grande parte, a do vamos à prática e construir nossa realidade, depende exclusivamente da atitude do self navegador de cada internauta e do modo como ele canaliza o fluxo da informação.

 

Agradecemos a atual facilidade do acesso a informação, e que todos tenham excelentes realizações!

Psicologia dos Ásanas

 Relações entre Yoga e Psicologia

Por Mirko Costa

Psicologia

Yoga

Ciência das desordens mentais e seus efeitos nos demais níveis (físico, emocional, intelectual, social e espiritual)

Sistema completo para a saúde em todos os níveis da realidade individual

Objeto: mente

Objeto: o Ser

Organiza e fortalece o discurso da mente

Silencia a mente

Fortalecimento do ego, afirmação da individualidade

Destruição do ego, entrega à consciência universal

Personalidade, identidade

Despersonalização, não identidade

Descobre a origem dos condicionamentos

Aniquila a origem dos condicionamentos

Doenças: soma físico-orgânica de traumas ou conflitos interiores incorporados

Avidya (ignorância) gera Vásanas (latências mentais) e samskaras (condicionamentos)

Princípio psicoanalítico: trazer à tona da consciência conteúdos profundos inconsientes

Princípio do yoga de Patanjali: faxinar o inconsciente com o kriya yoga (ações purificadoras

Visa desreprimir o desejo

Visa libertar-se do desejo e neutralizá-lo

Métodos: análise de discurso, leitura psicológica muscular emocional bioenergética e terapias - tomada de consciência e mudança de comportamento

Métodos: harmonização de pensamentos palavras e gestos, silêncio e higiene em todos os níveis

Psico análise: separar em partes distintas

Psico síntese: juntar as partes, unificar

Subjetividade: contraposição sujeito/objeto

Transcendência das dualidades

Conhecimento adquirido da observação de homens doentes

Conhecimento adquirido através da observação de homens santos

O Yoga Sutras de Patãnjali é um Tratado de Psicologia Profunda. É um mapa da psique humana, é claro e confiável, tanto hoje quanto na antiguidade. Seu objetivo é conduzir a mente normal, ignorantemente reduzida ao ego e suas limitações, para a felicidade suprema do estado de iluminação (samadhi) ou a experiência da Verdade.

Prática de Ásanas como Recurso Terapêutico Psicológico

   Instrumentalmente, ásanas podem ser usados como recursos para mobilização, reorganização, recuperação, realinhamento e harmonização de chákaras, eliminando impressões de traumas e conflitos e promovendo a reintegração pessoal.
   Ásana significa lugar para sentar e meditar. O lugar é o corpo, quem senta é a presença de Sakshi, a consciência testemunha. É limpar a casa e mantê-la em ordem para receber o espírito.
   Entende-se que os aspectos físico, emocional/energético, racional/intelectual, social e espiritual não são separados, portanto, alterações no nível do corpo físico com ásanas exercem efeitos também nos demais níveis.

Princípios dos Ásanas de Reintegração Pessoal (Mohan, 1993)

É recomendável à prática de ásanas:

1.      Ser equilibrada e confortável e tornar o corpo forte e flexível: deve produzir sensação de firmeza, estabilidade e bem-estar. A movimentação deve ser facilitada, as resistências devem ser reconhecidas e superadas através de esforço inteligente, usando a respiração para alcançar o objetivo proposto.

2.      Dar ênfase à espinha. Todos os processos vitais do organismo estão ligados à coluna vertebral, pois lá estão os nervos que comandam as ações e sensações do corpo. Priorizar o bem estar da espinha, dando-lhe harmonia e liberdade de movimentação é essencial para a saúde e o desenvolvimento do potencial do praticante.

3.      Adaptar-se (ao estudante) para atingir seu objetivo. Deve-se priorizar a função do ásana e não a sua forma final. Deve-se reconhecer as resistências e usar a adaptação para reduzi-las.

4.      Avançar numa seqüência de passos concatenados e inteligentes (vinyasa krama). Grandes ações são constituídas de muitos pequenos gestos. Objetivos distantes e de alta intensidade devem ser alcançado passo à passo, com calma e suavidade. O ‘estar indo’ é mais importante que o ‘chegar lá’.

5.      Fazer uso da respiração para integrar corpo e mente. A respiração é o elo de ligação entre o corpo e a mente. Ela está para o corpo assim como os pensamentos estão para a mente. A forma de respirar diz como a pessoa está se sentindo, então deve-se respirar profundo, consciente, intensamente, com suavidade e liberdade. A mente assume então uma função integrativa, engajando-se na tarefa de adaptar a respiração em cada postura para restabelecer o padrão correto.

6.      Fazer uso da respiração para adaptar as posturas ao praticante. Postura mais respiração igual a efeito. Um mesmo ásana pode ter efeitos muito distintos ao variar o modo da respiração. A respiração ajuda a entrar e sair dos ásanas de modo adequado, suavizando a resistência e mantendo a circulação de energia vital na área trabalhada.

7.      Usar a respiração como feedback. Observar a respiração, bem como escutá-la e senti-la, fornece muitas informações sobre o que está acontecendo no ásana. É importante fazer do respirar um indicador de quando começar, parar, o quanto intensa está a prática e quando é exagero. A prática vai bem quando a respiração mantém-se suave, longa, confortável, sem forçar.

 

Justificativa do Curso de Iniciação ao Yoga Científico

 

No ano 2000 conclui meu mestrado em Neurociências na UFSC, e o ensino público federal gratuito e de qualidade me formou um pesquisador habilitado a produzir conhecimento científico.

Na época da graduação em Psicologia o yoga já tinha me absorvido por completo. Na aula de Power Yoga do Marco Shcultz eu descobri o que era Psicologia. Trabalho a serviço do yoga levando comigo os achados científicos na minha caixa de ferramentas.

A ciência moderna é atualmente um dos procedimentos que mais funcionam efetivamente em termos de eficiência na ação, seja através de seus métodos rigorosos, seja pela sua força de previsibilidade de resultados esperados e projeção de estratégias para alcançar metas pré-determidadas.

Como yoga também é atenção e eficiência na ação, combina muito bem com métodos científicos, e hoje as duas escolas se entrelaçam muito bem e aparecem unidas para auxiliar o processo de aprendizagem, aquisição de habilidades e evolução gradual dos estudantes mundo afora.

Tenho trabalhado por conta própria levando o yoga para as pessoas em casa, nas escolas, empresas e clínicas e vejo como atualmente todos sentem e reconhecem a importância do yoga para a saúde e o desenvolvimento humano em geral, mas são poucos que realmente sabem o que e o quanto que o yoga faz uma diferença na vida das pessoas que experimentam. A ciência moderna tem resposta para essas questões minuciosas ao criar com seus métodos um mapeamento rico em detalhes sobre as mudanças que ocorrem com a prática. E como atualmente está mais do que na moda a crença de que você precisa primeiro ver as coisas para que elas existam, é importante refinar o foco e a resolução do que você quer ver. E a ciência ajuda muito nisso.

Sendo assim, tenho organizado a partir da minha visão híbrida de cientista e cobaia do yoga este curso chamado iniciação ao yoga científico, que visa habilitar o estudante a compreender e utilizar a ferramentaria técnica do yoga para induzir e modificar o comportamento em favor da saúde e da consciência, para o bem da vida.

Sinto-me grato por poder auxiliar o yoga como ele é feito atualmente nas salas de prática conferindo-lhe uma visão mais detalhada sobre seus efeitos no comportamento a partir da técnica de observação e análise experimental. Faço votos que este curso possa auxiliar o praticante a ver melhor sua prática, o professor a ensinar melhor para seus alunos e ter um atual diferencial de mostrar o resultado do trabalho de sua escola para tornar mais evidente e assim mais existente o yoga de cada um.

As portas estão abertas para aqueles que se identificaram com o chamado e querem compartilhar conosco essa experiência.

Om Gam Ganapataye Namaha!

Como ajustar o Ashtanga Vinyasa à nossa realidade

Por Mirko Costa

Quando Sri Krshnamacharya e seu discípulo Sri Pattabi Jois desenvolveram o método do Ashtanga Vinyasa Yoga, o grau de exigência da série de exercícios era algo planejado para atender as possibilidades e necessidades de um biótipo indiano iniciante no sadhana. Geralmente era ensinado cedo na juventude e diretamente de mestre para discípulo. Com o tempo muitas pessoas foram criando interesse pelo método e ele passou a ser praticado em grupos. Hoje existem muitas escolas mundo afora onde se ensina o mesmo método para pessoas muito diferentes daquele indiano que já estava mais ou menos preparado para aprender.

Assim sendo, o método ortodoxo, a forma de praticar as séries do Ashtanga Vinyasa assim como leciona o mestre em Mysore, na Índia, teve que sofrer uma série de adaptações ao ser transferido para o ocidente, a fim de tornar-se acessível para as condições das pessoas ocidentais. O Power Yoga é um exemplo clássico desse tipo de ajuste do método do Ashtanga Vinyasa a uma realidade americana. Aproveitando-se da onda da malhação e da cultura fisico-estética dominante nas academias de ginástica, o yoga remodelou-se para apresentar-se como um exercício corporal dinâmico, intenso, que produz suor e endorfinas, e com aquele “algo a mais” que o pessoal procura além da simples ginástica física. Os exercícios do Power Yoga são baseados na prática da respiração ujjayi e seqüências ou séries de ásanas tradicionais – vinyasas – ou suas variações, muitas vezes acompanhado de som new age ou trance music para dar um ritmo nas aulas.

Adaptações ou variações das técnicas clássicas podem ser formas de alterar ou diluir o método, mas não necessariamente modificam sua essência. O vinyasa krama é uma ordem lógica de encadeamento dos ásanas e tem uma psicologia para cada momento do percurso. Uma vez que isso seja preservado, tudo bem. A adaptação é uma capacidade que o professor desenvolve de observar a condição dos seus alunos e conduzir a série de forma segura dentro dos limites, trabalhando encima do que os alunos estão preparados para fazer e preparando-os para as tarefas mais difíceis. À medida que o praticante vai remoldando seus hábitos e tornando-se mais receptivo para o método, desenvolve condições de estudá-lo na profundidade de sua forma original.

 Principais desafios da primeira série

A série inicia em samasthiti, ativando respiração ujjayi completa, mula bandha e uddyiana bandha. Estas tarefas iniciais em si já requerem do praticante um treino preliminar e um certo conhecimento das partes do corpo que estão sendo ativadas.

Logo em seguida iniciam-se os ciclos de surya namascar. No começo, a repetição de 5 séries de saudações ao sol A e mais 5 da B podem ser um grande desafio para o iniciante, seja pela grande exigência física, muscular e cardio-vascular, devida ao pouco domínio do corpo, ritmos biológicos e força interna, ou pela reação mental quanto à duração e repetição dos ciclos. Também nas saudações ao sol é necessário que o aluno desenvolva uma consciência dos pontos de encaixe e alavancas do corpo, afim de que administre os recursos do corpo para manter a retidão e a integridade da coluna e dos membros ao longo das repetições dos vinyasas.

Se o aluno passou bem pelos surya namascar então ele chega nas posturas fundamentais em pé. Estas, por sua vez, exigem e estimulam o balanço ou jogo de cintura, agilidade nas pernas e controle da energia para não derreter, pois elas produzem muito calor. No método tradicional o professor não permite que o aluno passe para a próxima postura se ele ainda não aprendeu bem ou não estiver bem na primeira, e muitos são convidados a encerrar a sua prática quando chegam, por exemplo, no trikonasana ou no parshvakonasana. Na nossa sociedade, em aulas de grupo, o instrutor não tem muita liberdade para solicitar que um dos seus alunos encerre a sua prática com 20 ou 30 minutos de esforço, uma vez que temos o compromisso com uma aula marcada pela hora do relógio. Mas um descanso na postura da criança ou até mesmo em savásana no meio da prática pode ser um bom recurso para revigorar a energia se a pessoa estiver se sentindo cansada ou muito agitada.

Posturas de sentar ou de chão: Nessa parte os movimentos de flexão do quadril e da coluna para frente são trabalhados com o propósito de moldar a intensidade da energia que as séries iniciais em pé prepararam. Nesse momento o praticante deve estar pronto para relaxar completamente a coluna, mantendo o espaço, o ritmo e a intensidade da respiração. Acontece que o hábito que o homem ocidental adquiriu sentado em cadeiras altas do chão lhe tirou uma grande parte da mobilidade da região das virilhas. As posturas de chão partem do dandásana, onde as curvas naturais da coluna precisam ser sustentadas mantendo-se as pernas esticadas à frente e o tronco perpendicular ao chão. Esse é o ponto zero, onde se iniciam os movimentos de flexão, já logo com o paschimottanasana. Grande parte dos alunos chega nas aulas com a musculatura de trás das pernas encurtada, coxas e abdômen flácidos e menos de 90 graus de flexão de quadris sentado. Então eles nem conseguem chegar no ponto zero de início das flexões, que dirá passar para frente, ainda mais sustentando o peso dos ombros e cabeça sem ceder o espaço do peito.

Enquanto não existe consciência e mobilidade nos músculos e articulações que trabalham para flexionar a frente, as posturas finais de extensão e invertidas podem vir a ser torturantes. Se o corpo não está bem relaxado, aquecido e bem encaixado, não vai ser fácil fazer o urdhva danurasana, e a lombar ou o coração podem ser sobrecarregados. Se a coluna não tem sustentação adequada de pé, com a cabeça para cima, que dirá quando esta volta-se para baixo no sirshasana? E a posição do lótus, até fazer tudo bem no fim da prática que tudo já está tão amolecido, mas ter que respirar mais de 20 ciclos bem lentos e ritmados sem dor, daí pode ser demais. Elevar o utplutti, 25 respirações, então? Aí é claro que é demais, por um bom tempo.

 A seguir, um esquema geral de como pode estruturar-se uma aula de Ashtanga I, ou aula para iniciantes que desejam aproximar-se do método: 

Descrição resumida e adaptada da primeira série:

 1. Início:

Em uma posição firme e confortável, geralmente sentado ou em pé, fazer a introspecção, ativar a auto-observação e fazer o exercício do mantra invocação à Patanjalim. Ainda nessa primeira parte pode-se escolher um tema ou foco de observação durante a prática, podendo ser um ajuste geral para as posturas, o ritmo da respiração, ou ainda alguma sensação ou atitude quanto a um determinado aspecto da prática.

A partir desse ponto inicia-se um aquecimento gradual ou mobilização orgânica, que pode ser com os ciclos de surya namascar clássicos ou variações de posturas que ativem sistematicamente a atenção à postura do corpo, às sensações de encaixe, firmeza e alongamento, e contribuam com o ritmo da respiração completa.

No início pode-se reduzir o número de ciclos, ou variar um pouco, didaticamente, a forma de execução das posturas e dos movimentos das séries A e B em função de ressaltar um ou outro aspecto desejado e beneficiar o alinhamento e a segurança da coluna. Uma vez atendendo à necessidade de produzir calor moderado e ritmo respiratório, o surya namascar clássico pode ser reduzido, alterado ou feito em sua totalidade. Podem ser usadas nessa fase adaptações como os joelhos fletidos em uttanasana, caminhar em vez de saltar, não flexionar os braços no chaturanga dandasana, fazer bhujangasana em vez de urdhva mukha svanasana, repousar os joelhos no chão no cachorro pra baixo enquanto respira as cinco vezes, coisas que reduzem o esforço e permitem mover-se com mais fluidez, contornando as dificuldades da falta de firmeza ou espaço.

 2. Desenvolvimento da prática

Posturas de pé:

A conquista da extensão total das pernas, braços e coluna de samasthiti nas demais posições da série é um desafio que no começo pode ser amenizado flexionando-se os joelhos ou não estendendo tanto os braços, até a hora do utkatasana e da série dos guerreiros. Nessa hora pode-se observar o quanto os asanas anteriores foram capazes de preparar a energia para o que vem a seguir.

Durante as séries de posturas de pé, pode-se optar por pular algumas posturas como as de torção, dependendo do nível da turma, fazer apenas um ou dois prasarita, dar variações das posturas de equilíbrio como segurando o joelho em utthita parshvasahita, optar por vrkshasana em vez de ardha badha padmottanasana, flexionar um pouco dos joelhos nas posições de extensão das pernas para priorizar a estabilidade pélvica.

Posturas de chão:

Tendo como objetivo preparar a flexão dos quadris para sustentar a coluna extensa nos movimentos para frente, valem as adaptações de dobrar os joelhos, segurar a canela ou uma cinta alçada no pé.

Para a maioria dos iniciantes, as posturas de chão concluem com o navasana, o que já dá uma boa dose de trabalho.

Nas posturas de chão, alternar posturas compensatórias como paschimottanasana/purvottanasana, ardha baddha padma padottanasana/triang mukha ekapada paschimottanasana, janu sirshasana A e B/marichyasana A e C (variação abraço com o joelho pela frente), finalizando com a série navasana facilitada (segurando as pernas elevadas e semi-fletidas). Introduzir os meio vinyasas entre uma postura e outra aos poucos, marcando navasana, abraço das pernas e elevação sobre os braços ou passo para trás-chaturanga dandasana-cachorro para cima, para baixo e passo à frente. 

Posturas finais:

As extensões são muito complicadas no início, e o arco (urdhva danurasana) pode ser muito exigente nas primeiras vezes, tanto quanto a invertida sobre a cabeça (sirshasana). Adaptações como o setubandhasana modificado como preparação para as extensões do arco que estão por vir, o  viparita karani ou meia inversão sobre os ombros como inversão básica e o meio lótus ou sukhasana em vez do padmasana podem ser uma boa aproximação introdutória, proporcionando praticamente os mesmos efeitos das posturas finais.

Cabe ao professor a dupla tarefa de observar sempre a possibilidade dos alunos que têm mais facilidade executarem as posições completas, sugerindo-as quando for o caso, e impedir que os alunos ambiciosos insistam em tentar fazer o que não tem condições.

3. Parte final:

Após a série de asanas, pode-se ainda fazer um respiratório básico como samavritta pranayama ou nadi shodana para estabilizar a energia e depois relaxar por completo em savásana, por um período entre 5 e 15 minutos.

Por último uma breve meditação, em posição sentada e centrada, consolidando a auto-observação e a tomada de consciência dos efeitos dos exercícios.  A prática conclui com  mangalan mantra e shanti path.

Om shanti shanti shantihi. Hari Om.

 Considerações sobre a primeira aula

Mesmo uma programação facilitada como essa descrita anteriormente pode ser demais para um aluno que esteja chegando desavisado ou desinformado na primeira aula. Ele vê as pessoas com toalhas sobre o tapete e não tem noção de como vai ser e o quanto vai suar.

Numa escola onde existem vários horários e turmas, é importante que o aluno novo tenha uma noção básica e mínima do que é o trabalho para poder situar-se adequadamente na sua primeira prática e acompanhar o grupo com segurança.

Para isso, considero importante para cada escola que ensina o método que dispusesse de um horário semanal para uma aula introdutória ou de iniciantes. Esta aula teria o seguinte programa básico:

  • Partindo do ajuste de todos em sukhasana, uma breve apresentação pessoal e exposição dos motivos que trouxeram o interessado a esta aula. Neste espaço o instrutor responde eventuais dúvidas e expõe o método, apresentando o esquema geral de aulas da série primária.

  • Introdução à linguagem das aulas: treino da respiração ujjayi completa.

  • Introdução aos princípios de alinhamento: construção de samasthiti.

  • Treino das posturas do surya namascar A: observação dos principais pontos de encaixe do corpo e movimentação de uma postura para outra (vinyasa)

  • Treino das posturas do surya namascar B: princípios de execução dos ásanas iniciais (5 respirações em utkatasana, uttanásana e virabhadrasana).

  • Princípio das posturas de chão: Dandasana

  • Princípios do relaxamento: shavasana

  • Encerramento da prática: sukhasana, agradecimento e mantra da paz.

  • Comentários finais, informações sobre turmas, horários e recomendações gerais para as aulas.

 

A Dimensão do Tempo no Ashtanga Vinyasa Yoga

Por Mirko Costa

     Dentre os diferentes métodos do yoga, o Ashtanga Vinyasa é um que tem despertado grande interesse das pessoas do ocidente, devido à beleza desafiante das séries de ásanas, concatenadas de forma tão fluída e concentrada através da respiração. Num mundo onde as belas formas são apreciadas e todos precisam correr contra o tempo, o trabalho intenso no corpo físico tem valor demérito.

     A partir do horário de início da prática, o tempo é medido em respirações, e isto faz com que o tempo real seja vivenciado plenamente, enquanto a atenção está no presente. O relógio interno é bem diferente do relógio cartesiano. O relógio de pulso não condiz com o tempo das pulsações do coração. O ritmo do coração varia em função do momento. O ritmo do relógio é determinantemente inflexível, e requer que os momentos adaptem-se a ele.

     O tempo do sádhana (a prática diária do yoga) é um espaço do dia especial para desconectar dos compromissos com o mundo do relógio e vivenciar a dimensão interior do tempo, o mundo da auto-observação, da luz sobre o universo de sensações, pensamentos, emoções, condutas e valores que configuram nossa percepção agora e a todo o momento.

     O vinyasa, ou a sincronia da respiração com o movimento do corpo, faz com que o tempo flua num ritmo que é único, pois cada um experimenta seu universo interior de uma forma singular, dia após dia. Porém, como as séries de vinyasas são bastante intensas, por uma questão de canalização de energia, você, para progredir, precisa aprender a tirar as pedras da mochila para melhorar seu ritmo de caminhada. Procure deixar em segundo plano todas as suas noções mentais cristalizadas como “sou o meu passado e continuo assim sendo”, ou voláteis como “amanhã serei aquilo que tanto quero”, e observar melhor o momento “eu estou”, em sucessiva e ininterrupta transformação. Aprende-se que o tempo real é uma jóia, e é nele que o passado vai sendo substituído gradualmente pela semente do futuro.

     Isto vem na medida em que a prática constante vai criando uma familiaridade com a repetição da série. É como aprender a dirigir um veículo: primeiro você reconhece os mecanismos, o assento, os comandos do acelerador e do freio, a tração, alimentação, etc. Depois você fica pensando: para andar, primeiro faço isso, depois isso. Para parar, primeiro aquilo, depois isso e pronto. Assim você aprende a coordenar os elementos e conclui seu serviço. Depois de um certo tempo você já memorizou os comandos e dirige instantaneamente, sem precisar ficar pensando. Daí você está pronto para passar para o nível seguinte e aprender a observar como você está dirigindo. Quando suas ações rotineiras passam a ser como o espelho que você se vê quando acorda todo dia, então começa o yoga de verdade.

     Todo dia Eu me dou conta de quem é aquele que está dirigindo. Eu observo, reconheço, aceito e transformo aquele que dirige. Eu vivo o Meu momento, Me harmonizo com cada situação que a vida Me concede, com gratidão pela oportunidade de aprender com as ações. Ainda que eu esteja no comando, Eu reconheço e respeito as leis naturais que são superiores à minha vontade e determinação. Eu focalizo o meu rumo na vida e faço a Minha parte. Eu permaneço presente em qualquer coisa que eu faça. Eu descubro que Eu não tenho tempo, mas o tempo me tem. Eu não sou o tempo, porque o tempo na vida passa e eu permaneço. Até a vida passa com o tempo, mas Eu, como sempre, continuo...

   

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